Se estudarmos as intenções conscientes e inconscientes dos autores
dos evangelhos, constataremos que eles não tinham a intenção de fundar uma
filosofia de vida, de promover um herói político, de construir um líder
religioso, nem de criar um homem diante do qual o mundo deveria se curvar. Eles
queriam apenas descrever uma pessoa incomum que mudou completamente suas vidas.
Queriam registrar situações, mesmo que incompreensíveis e estranhas aos
leitores, que seu mestre viveu, seus discursos e pensamentos descritos nos
evangelhos, constataremos que há diversos fatores que evidenciam que Cristo
tinha uma personalidade inusitada, distinta, ímpar,
imprevisível.
Dois dos autores dos evangelhos eram discípulos íntimos de Cristo
(Mateus e João). O evangelho de Marcos foi escrito baseado provavelmente nos
relatos de Pedro: Marcos era tão íntimo de Pedro que foi considerado por ele
como um filho (I Pedro 5:13). Então
concluímos que três desses autores tiveram uma relação estreita com o seu
personagem. Cristo era real ou fruto da imaginação desses autores? Vamos às
evidências.
Se os evangelhos fossem fruto da imaginação literária desses
autores, eles não falariam mal de si mesmos, não comentariam a atitude frágil e
vexatória que tiveram ao se dispersar quando Cristo foi preso. Quando ele se
entregou aos seus opositores e deixou sua eloquência e seus atos sobrenaturais
de lado, os discípulos ficaram frágeis e confusos. Naquele momento, tiveram
vergonha dele e sentiram medo. Naquela situação estressante, as janelas de suas
mentes foram fechadas e eles o abandonaram.
Pedro jurou que não negaria Cristo. Amava tanto seu mestre que
disse que, se possível, morreria com ele. Porém, numa situação delicada, o
negou. E não apenas uma vez, mas três, e ainda diante de pessoas sem qualquer
poder político. Quem contou aos autores dos quatros evangelhos que Pedro negou
Cristo por três vezes diante de alguns servos? Quem contou a sua atitude
vexatória, se ninguém do seu círculo de amigos sabia que ele o havia negado?
Pedro, ele mesmo, teve a coragem de contá-lo. Que autor falaria mal de si mesmo?
Pedro não apenas contou os fatos, mas expôs os detalhes da sua negação. Para
Lucas, ele contou alguns detalhes significativos que
estudaremos.
Com quem Pedro, que quando jovem era um rude e inculto pescador,
aprendeu a ser tão sincero, tão honesto consigo mesmo, a ponto de falar das
próprias misérias? Ele deve ter aprendido com alguém que, no mínimo, admirava
muito. Alguém que tivesse características tão complexas na sua inteligência que
fosse capaz de ensinar Pedro a se interiorizar profundamente os seus valores
existenciais. O Cristo descrito nos evangelhos tinha tais características. Mesmo
diante de situações tensas, em que uma pequena simulação o livraria de grandes
sofrimentos, Jesus optava por ser honesto consigo mesmo. Pedro aprendeu com ele
a difícil arte de ser fiel à própria consciência, a assumir seus erros e suas
fragilidades. O que indica que esse Cristo não era um personagem literário, mas
uma pessoa real.
Se os autores dos evangelhos quisessem produzir conscientemente um
herói religioso, eles, como seus discípulos, não desnudariam a vergonha que
tiveram dele momentos antes de sua morte, pois isso deporia contra a adesão a
esse suposto herói, ainda mais se fosse imaginário. Esse fato representa um
fenômeno inconsciente que confirma a intenção dos discípulos de descreverem um
homem incomum que realmente viveu na terra.
Quando Cristo foi aprisionado, injuriado e espancado, o jovem João
o abandonou, fugiu desesperadamente, junto com os demais discípulos.
Além disso, João, o autor do quarto
evangelho, descreveu com uma coragem única a sua fragilidade e impotência diante
da dramática dor física e psicológica do seu mestre na cruz (João
19:26).
Quando João escreveu o seu evangelho? Quando estava velho, por
volta de 90 d.C., mais de meio século depois que esse fato ocorreu. Todos os
apóstolos provavelmente já tinham morrido. Como nessa época alguns estavam
abandonando as linhas básicas do ensinamento de Cristo, João, na sua velhice,
descreveu tudo aquilo que tinha visto e ouvido. O que se espera de uma pessoa
muito idosa, que está no fim da vida? Que ela não tenha mais nenhuma necessidade
de simular, omitir ou mentir sobre os fatos que viu e viveu. O velho João não se
escondeu atrás de suas palavras. Ele não apenas discorreu sobre uma pessoa –
Cristo – que marcou profundamente sua história de vida, como, em sua descrição,
também não se esqueceu de abordar a própria fragilidade. Isto é incomum na
literatura. Só tem lógica um autor expor suas mazelas desse modo se ele desejar
retratar a biografia real de um personagem que está acima
delas.
As pessoas tendem a esconder suas fragilidades e seus erros, mas
os biógrafos de Jesus Cristo aprenderam a ser fiéis a sua consciência.
Aprenderam com ele a arte de extrair sabedoria dos erros. Ao estudar as suas
biografias, constatamos que a intenção consciente e inconsciente dos seus
autores era apenas expressar com fidelidade aquilo que viveram, mesmo que isso
fosse totalmente estranho aos conceitos humanos.
Se Cristo fosse fruto da imaginação dos seus biógrafos, eles não
apenas teriam riscado os dramáticos momentos de hesitação que viveram, mas
também teriam riscado dos seus escritos a dramática Angústia que o próprio
Cristo passou na noite em que foi traído, no Getsêmani. Um dia eu talvez escreva
sobre esse momento ímpar e os fenômenos psicológicos envolvidos nesse ambiente.
Aqui minha abordagem será sintética.
Naquela noite, Jesus mostrou a dimensão do cálice que ia beber, a
dor física e psicológica que iria suportar. Se os autores dos evangelhos
tivessem programado a criação de um personagem, teriam escondido a dor, o
sofrimento de Cristo e o conteúdo das suas palavras. Teriam apenas comentado os
seus momentos de glória, os seus milagres, a sua popularidade. A descrição da
dor de Cristo é a evidência de que ele não era uma criação literária. Não viveu
um teatro; o que viveu foi relatado.
Eles também não teriam registrado o silêncio de
Jesus Cristo quando ele estava diante do julgamento dos principais sacerdotes e
políticos. Pelo contrário, teriam colocado respostas brilhantes em sua boca.
Durante sua vida, ele pronunciou palavras sábias e eloquentes que deixavam
pasmadas até as pessoas mais rígidas. Porém, quando Pilatos, intrigado, o
interrogou, ele se calou. No momento em que Jesus mais precisava de argumentos,
ele preferiu se calar. Coma sua inteligência, poderia se safar do julgamento.
Mas sabia que aquele julgamento era parcial e injusto. Emudeceu, e em nenhum
momento procurou se defender daquilo que havia feito e falado em público. Ele
apenas se entregou aos seus opositores e deixou que eles julgassem suas palavras
e seu comportamento. Ele foi julgado, humilhado e morreu de forma injusta, e os
seus biógrafos descreveram isso.
(Fonte: Análise da Inteligência de Cristo –
Augusto Cury).

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